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O Carvoeiro de ontem, de hoje, e de amanhã
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Autores:
Cristina Barbosa
Laércio Antão
Natércia Antão |
Ao visitante
Chegado a este monte
Olha este povoado:
Tão lindo é o horizonte
Tão rico é o seu passado.
Do cabeço até à fonte
Todo ele è engraçado
Foi crescendo pelo monte
Com esforço sublimado.
Percorre as ruas estreitinhas,
Passa pelo Linhar
Entra na capelinha,
Recolhe-te, vai meditar!
Gostaste do carvoeiro?
Ele é muito hospitaleiro!
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Introdução
O presente trabalho “Carvoeiro de ontem, de hoje e de
amanhã” tem como principal objectivo um estudo aprofundado
de como tem evoluído o mundo rural no último meio século,
partindo assim de uma realidade
concreta: - a aldeia do Carvoeiro que é,
julgamos nós, um exemplo paradigmático dessa evolução.
No nosso trabalho focaremos aspectos relacionados com a
demografia, nível de vida, economia e principalmente os
costumes e tradições que caracterizam uma identidade rural.
Para tal foi necessário recorrermos a uma metodologia de
base. Como a aldeia é “mais uma entre tantas outras”, sem
grande importância a nível nacional a procura de
bibliografia foi em vão. Não havendo nenhum estudo publicado
sobre o Carvoeiro (apenas encontramos no jornal A Comarca
de Arganil alguns trabalhos em verso, criados por filhos
da aldeia sobre as tradições locais e que transcrevemos ao
longo do nosso trabalho), o nosso trabalho surge como
pioneiro albergando, assim, uma responsabilidade acrescida.
Não pretendemos apenas um simples relatório de como
tem evoluído esta aldeia, mas sobretudo uma interpretação de
uma realidade por nós presenciada.
Assim, o nosso estudo incidiu sobretudo num trabalho de
campo, numa investigação no terreno. Como a aldeia conta com
um número reduzido de habitantes isto não foi difícil, sendo
assim facilitada a nossa conversa com todos (ou quase todos)
os habitantes.
Mas para melhor percebermos a dinâmica evolutiva desta
aldeia consultámos os censos de 1971/81/91 e o anuário
estatístico da região centro; tivemos conversas com o
presidente da câmara de Pampilhosa da
Serra , o Sr. Hermano Almeida; dada a ausência do
presidente da junta de freguesia de Pessegueiro falamos com
a secretária, Dª Mª Teresa; tivemos uma longa conversa com o
Sr. Manuel da Conceição Neves, que nos pareceu a pessoa que
mais sabe acerca do Carvoeiro, pois foi lá que nasceu, e
apesar de ter vivido em Lisboa muitos anos, é nesta aldeia
que se sente bem e, foi por amor
aquela terra que ele toda a vida tem lutado para defender
sempre os direitos de todos os habitantes; visitámos também
o museu municipal onde entrámos em contacto com o artesanato
e o espólio etnográfico do
concelho.
Após estes dias de convivência rural, a experiência foi
muito enriquecedora não só para o objectivo do trabalho,
como para a nossa experiência como estudantes de geografia,
onde o estudo de campo e a convivência (interpretação) com a
paisagem são fundamentais.
Desde já queremos agradecer a disponibilidade e
hospitalidade daquela gente que nos recebeu “de braços
abertos” e nos deu informações preciosas, sem as quais não
seria possível a realização deste trabalho.
Achamos oportuno deixar um obrigado especial para o
presidente e para todos os funcionários da câmara municipal
que foram incansáveis e apesar de todo o seu trabalho nos
deram a sua atenção. A todos, o nosso muito obrigado!
De seguida apresentaremos o desenvolvimento do trabalho mas
ficará sempre algo para dizer.
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Contexto Histórico e Geográfico
O concelho de Pampilhosa da Serra, ao qual pertence a
aldeia de Carvoeiro, faz parte do distrito de Coimbra, tem
cerca de 396 km2 de área distribuídos por dez freguesias:
Cabril, Dornelas do Zêzere,
Fajão, Janeiro de Baixo,
Machio, Pampilhosa da Serra,
Pessegueiro (na qual se insere Carvoeiro), Portela do
Fojo,
Unhais-O-Velho e Vidual.
(ver anexo I)
Este concelho é o segundo maior do distrito de Coimbra,
sendo o único a pertencer à província da Beira Baixa.
A Pampilhosa da Serra faz fronteira a Norte com o concelho
de Arganil; a Sul com o concelho de Oleiros; a Nordeste
com o concelho da Covilhã; a Sudeste
com o concelho do Fundão; a Noroeste com o concelho de
Góis; e Sudoeste com o concelho de
Pedrogão Grande.
Situada entre os contrafortes da Serra da Estrela, do Açor
e da Lousã, o concelho é todo ele montanhoso, salpicado
nos sopés das montanhas por variadas aldeias rurais de
tradições e costumes ancestrais. O concelho é atravessado
a Norte pelo Rio Ceira, ao
Centro pelo Rio Unhais e a Sul pelo Rio Zêzere.
Há quem atribua ao nome de Pampilhosa sinais de vida
pastoril, ao remeter a sua origem etimológica à abundância
da Pampilhos (malmequeres
campestres) nas margens dos rios
Ceira, Unhais e Zêzere. O acrescento da Serra foi
criado no século XIX para distingui-la de Pampilhosa do
Botão na Mealhada.
Este concelho tem origem no período medieval.
D.Dinis terá concedido à
Pampilhosa o título de vila, mas o foral medieval foi dado
por Pessoa Particular. Em 1380
D.Fernando anexou Pampilhosa ao julgado da Covilhã,
mas a 10 de Abril de 1423 D.João
I confirmou-lhe os privilégios de vila isenta. D. Manuel
outorgou-lhe foral novo a 20 de Outubro de 1513.
O património construído do concelho apresenta um vasto
número de igrejas, capelas, casas antigas, moinhos e
lagares, intimamente ligado com à ruralidade económica e
social vivida nas aldeias beirãs, das quais Carvoeiro não
é excepção.
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Carvoeiro
d’ontem
Caminhada histórica
Carvoeiro localiza-se no Baixo concelho da Pampilhosa da
Serra ( ver anexo I e II ),
pertence à freguesia de Pessegueiro, cujo território é
limitado a nascente pela Ribeira de Carvalho; a Poente
pela Ribeira de Pessegueiro; a Norte pela Serra da Amarela
e a Sul pelo Rio Unhais.
A sua fundação perde-se na bruma do tempo não sendo
possível determinar uma data certa. No entanto, pelo que
nos chegou em termos de memória popular, o seu início
poderá apontar para o século XVII.
O seu nome terá surgido pelo facto de ter sido fundada por
cinco homens cuja profissão seria fazer carvão
( carvoeiros ), já que na
região abundava vegetação que potenciava aquela actividade
humana. Com o possível esgotamento da
matéria prima que serviu para fazer o carvão, as
gerações seguintes, dedicaram-se sobretudo à agricultura,
uma agricultura de subsistência.
As pequenas leiras (
pequeníssima propriedade de onde os
Carvoeirenses tiravam o seu
sustento ) foram construídas durante os séculos XVIII e
XIX através de golpes de energia e de labor intenso dos
seus habitantes. De facto, herdeiros de uma paisagem que
lhes era adversa foram eles que
construiram não só as terras para cultivo, como
também quilómetros e quilómetros de levadas que serviram
para irrigar os pequenos campos de milho que, assim, foram
prosperando e servindo de alimentação à sua população.
Até à década de cinquenta a aldeia, em termos de
infra-estruturas manteve-se parada no tempo: habitações
sem condições; sem luz; sem telefone; sem água ao
domicílio e sem acessibilidades. Dir-se-ia que era uma
comunidade entregue a si própria, sem horizontes que não
fossem os da pura sobrevivência. No fundo, a aldeia
sofreu, tal como o mundo rural português, o ostracismo
imposto pelo regime do Estado Novo.
Todavia, a partir da década de 50, sobretudo pela
acção da Liga de Melhoramentos do Povo do Carvoeiro,
incluída num movimento regionalista mais vasto e único no
nosso país, cuja génese remontava a uns anos antes e
abrangia não só o concelho de Pampilhosa da Serra, mas
também o de Góis e Arganil, fundada a 10 de Maio de 1942,
por alguns naturais, nomeadamente Augusto Alves Antão,
António Martins, José Maria Neves, Júlio Augusto Brito,
Manuel Jacinto Henriques e Albano Antão de Oliveira, que
se insurgiram contra o abandono total por parte do poder
local e central, foi possível tirar a aldeia desse marasmo
ancestral. Assim, em 1950 foi inaugurada a Nova Escola
Primária e a aldeia foi ligada à estrada Nacional número
112; em 1958 foi construída a Casa do Convívio; em 1959 a
aldeia foi dotada de água para consumo doméstico e de
telefone; em 1960 foi electrificada e as suas ruas
calcetadas, ficando assim com boas infra-estruturas,
considerando o atraso geral do mundo rural desse
tempo.
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Evolução demográfica
Em termos de êxodo rural a aldeia do Carvoeiro pode ser
apontada como paradigma do que se tem vindo a passar nesse
âmbito, já que as razões evocadas para esse êxodo são
também idênticas. Nunes Barata, advogado ilustre e antigo
deputado da Assembleia Nacional, aponta como razões desse
êxodo a “ ambição de conhecer novos horizontes económicos,
culturais e sociais “.
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Freguesia do Pessegueiro
| Lugar do Carvoeiro |
| 1960 |
1970 |
1981 |
1991 |
| 111 |
63 |
32 |
26 |
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Fonte: in Jornal Serras da Pampilhosa, Mês de Novembro,
1ª página
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Assim, conforme o quadro referenciado, em 1960 a aldeia
tinha 111 habitantes; em 1970 63; em 1981 32 e em 1991
apenas 26, sendo estes últimos as sua maioria idosos ( com
mais de 65 anos ). Foi, pois, a partir da década de
sessenta que o seu declínio populacional se tornou
inexorável, já que, por um lado a mortalidade aumentou com
o envelhecimento da população, e, por outro lado, a
emigração em massa sobretudo para Lisboa dos seus naturais
levaram aquela situação.
Se tivermos em conta apenas estas variáveis talvez
chegássemos à triste conclusão de um eventual
desaparecimento da aldeia a médio prazo.
Porém, neste momento, em consequência de três casais
jovens que se fixaram nesta aldeia, a natalidade aumentou
e poderá inverter este processo, já que actualmente se
verifica, um crescimento da população que se cifra em 33
habitantes, dos quais 11 estão na faixa etária dos 20 aos
40 anos; e oito entre os 1 e os 15 anos, sendo os
restantes idosos com mais de 65 anos.
Apesar de tudo, segundo Hermano Almeida (presidente da
Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra) “Carvoeiro é uma
aldeia semi-desabitada” mas que ganha vida nos meses de
Verão à semelhança do que acontece no restante concelho em
que a população quintuplica, justificando assim o
investimento que aí se tem desenvolvido ”.
Por seu lado, o Presidente da Junta da Freguesia de
Pessegueiro, Manuel Fernando de Almeida, afirmou ao jornal
Serras da Pampilhosa: “ é com grande nostalgia que
vemos as aldeias da freguesia a caminhar para a
desertificação, a razão de tal fenómeno deve-se talvez, em
grande parte, ao baixo nível económico da populações e à
pouca coragem dos nossos governantes, que ao longo de
todos estes anos tem sistematicamente esquecido o nosso
concelho. Não é pois de estranhar que as gentes deste
concelho tenham procurado outras paragens para poderem
viver uma vida melhor.”
Se o poder local
continuar a investir em infra-estruturas e
acessibilidades, como tem vindo a fazer, as actividades
económicas ( comércio, pequena indústria, artesanato e
turismo cultural e de montanha ) poder-se-ão animar
potenciando postos de trabalho e, por conseguinte, fixar
no futuro localmente as poucas crianças existentes, dando
assim continuidade à aldeia, que é tema deste trabalho.
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Cultura Popular (costumes e tradições)
A cultura popular da aldeia insere-se na do próprio
concelho e até na de muitas outras aldeias beirãs, sendo
rica e diversificada.
Os costumes e tradições apesar de se terem vindo a perder
ao longo do tempo, alguns continuam a perdurar devido às
memórias dos habitantes da terra que vão lutando para que
permaneçam intactas. Das tradições e costumes de Carvoeiro
recolhemos as seguintes manifestações profanas:
- As janeiras: no dia 31 de Dezembro de cada ano a
juventude da aldeia juntava-se num grupo misto e homogéneo
que percorria todas as habitações a pedir as janeiras: ó
senhora lá de casa/sentada numa cortiça/ dê lá volta a
casa/ dê-me cá uma chouriça. Depois juntavam-se numa casa
normalmente desabitada, onde, quais cozinheiros de
ocasião, confeccionavam os alimentos angariados
banqueteando-se, prolongando a noite até ao dia seguinte.
Veja-se como um autor nascido na própria aldeia, Laércio
Antão, descreve as janeiras do seu tempo.
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As Janeiras
Antes que surgisse o mês de Janeiras
Pedia-se a carne e as chouriça
Que, com batatas e hortaliças
Fazia um banquete por inteiro!
Festa, alegre, feita sem canseiras
Batia mais forte o nosso coração
Grupos de jovens, cozinheiros de ocasião,
Festejavam, juntos, as Janeiras!
Comia-se muito, era uma folia!
Cotavam-se histórias d’encantar
Ou lendas do antanho, cheias de magia.
E, assim, se acabava aquele serão
Vivido intensamente a sonhar...
Com a alma impregnada de emoção!
In jornal A Comarca de Arganil, nº 9903, 4 de
Novembro de 1992
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- A matança do porco: dadas as dificuldades do quotidiano
de todas as gentes do Carvoeiro a criação do porco ou
porcos era prioritária para a sua alimentação. Deste modo,
todos os habitantes ao longo de variadíssimas gerações
criavam anualmente porcos que, por altura de
Dezembro-Janeiro de cada ano, faziam a sua matança. Era um
evento festivo, já que era pretexto para encontro familiar
através de uma abundante ceia confeccionada sobretudo com
algumas partes do porco – a cachola. Depois
desmanchava-se, dividia-se a sua carne, faziam-se as
morcelas e chouriças ( secando-as ao fumo da lareira ) e
guardavam-se esses alimentos em locais próprios: a carne
nas “ salgadeiras” e as chouriças na banha, que serviam
assim de conduto para o resto do ano.
- O mastro: colocava-se perpendicularmente num local
próprio um pinheiro sem ramos e, ao longo de várias
semanas a juventude masculina ia trazendo ramos verdes e
secos que iam juntando em circulo ao redor do pinheiro. Na
noite de 23 para 24 de Junho essa lenha era incendiada
ardendo em labaredas, e à sua volta os jovens brincavam e
saltavam até de madrugada. Depois, antes do nascer do sol,
todos se deslocavam até ao Rio Unhais onde eram obrigados
a banhar-se nas suas águas frias. O autor mencionado
anteriormente descreve esta tradição da seguinte
maneira.
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O Mastro
Durante alguns meses de Verão
Juntava-se a lenha ao redor do mastro.
Para, depois, na noite de São João
Arder, cintilante, como um astro!
À sua volta, enquanto ardia,
Saltava-se e ouvia-se cantar.
Era tal o entusiasmo e a alegria
Que até os adultos gostavam de dançar...
Donde teria vindo aquela tradição?
Aquele gosto de ver o mastro a arder
Que era gerador de tanta emoção?!
Herdada dos Mouros ou dos Monges?
E para que seria aquela lenha a arder?
Talvez, para afastar as pestes para longe!
In jornal A Comarca de Arganil, nº
9904,
26 de Novembro de 1992
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- As desfolhadas e as debulhas: em termos agrícolas o
milho representava quase a sobrevivência dos habitantes da
aldeia. Este cereal era semeado, sachado e regado várias
vezes até à sua maturação. Por volta de finais de
Setembro-Outubro as espigas do milho eram apanhadas e
transportadas até aos seus locais de recolha.
Depois em grupos colectivos juntavam-se para
desfolhar as espigas e de seguida fazer a sua debulha.
Esta, era feita através de artefactos próprios e
prolongava-se por longas horas.
Tanto as desfolhadas como as debulhas eram
pretexto para convívio sadio e salutar.
Durante as desfolhadas, quem encontrasse uma
espiga de milho vermelha ( espiga raínha ) tinha de dar um
abraço a todos os rapazes/raparigas. |
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Veja-se como o mesmo autor aborda estas tradições: |
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As Desfolhadas
Eram tardes e noites esquecidas...
Aquelas em que se faziam as desfolhadas.
Desnudavam-se as espigas, apetecidas,
Feitas de ouro e a prata, debruadas!
Nelas se juntava a nossa gente
Jovens, adultos e anciãos.
Contavam-se histórias, alegremente,
Enquanto se desfolhavam com as mãos.
Momentos calmos que compensavam
A vida árdua que levavam
Na sua luta sublime com a terra...
Um sorriso, terno, ao recolher
O fruto de canseiras – que dizer?
É, assim, o Homem da Serra!
In jornal A Comarca de Arganil, nº 9871,
3 de setembro de 1992
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As Debulhas
Eram tão alegres os serões ao luar
E, as noites, cálidas, tão divertidas.
Sentia-se os paus a bater nas espigas
E ouvia-se os sons dos malhos a malhar!
Geravam corações, ledos em comunhão;
Inter ajuda, solidariedade, alegria;
Amizade, ternura, tanta fantasia...
A um povo, bom, que vivia em união!
Eventos árduos feitos a cantar
E a contar histórias ancestrais
Que pareciam coisas lindas de encantar...
Animavam e alegravam os corações
Cantavam como se fosse em arraiais,
Era um encanto aqueles serões.
In jornal A Comarca de Arganil, nº9879,
24 de setembro de 1992
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- As vindimas: a aldeia vivia intensamente a época das
vindimas por volta da primeira quinzena de Outubro de cada
ano. Normalmente era feita em termos colectivos e de
interajuda entre os diversos pequenos proprietários da
aldeia, trocava-se o trabalho em vez do pagamento em
dinheiro. Dado que abundava aqui a pequena propriedade, em
alguns casos pequenissimas leiras, o vinho que se produzia
era apenas para consumo local. A festa das vindimas estava
intrinsecamente arreigada no imaginário colectivo da
aldeia.
Atestando este facto, veja-se como o autor que vimos
citando fala sobre as vindimas que presenciou:
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As vindimas
Quando as uvas, de tom reluzente,
Coloridas, doces, já maduras,
Faziam-se as vindimas, ternamente,
Numa azáfama cheia de ternuras!
Era um regalo ouvir as cantigas,
As risadas, ledas, emoções sem par;
Enquanto os rapazes e as raparigas
Em diálogo, idílico, pareciam sonhar!...
Cortadas, uma a uma, os cestos enchiam
E aos ombros do homem p’ras dornas seguiam
Num trabalho, alegre, cheio de emoção...
Tarefa tão linda, sempre desejada.
Sempre repetida e sempre encantada
Que tanto fascinava o coração!
In jornal A Comarca de Arganil, nº 9896,
5 Novembro
de 1992
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- A festa do Carneiro: realizava-se pelo Carnaval e era
feita exclusivamente pelos alunos da escola que se
fantasiavam e, com a ajuda dos pais, ofereciam um carneiro
à professora, sendo depois ocasião para a realização de um
baile e peças de teatro.
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Manifestações religiosas:
- O Bodo: é uma das tradições mais antigas desta
aldeia e teria tido inicio a pretexto de uma promessa de
um habitante do Carvoeiro ao Sr. do Bonfim, padroeiro da
aldeia. O Bodo continua a fazer-se embora perdendo o seu
objectivo inicial que era o de compartilharem o pão com os
pobres.
Esta festa é organizada pelos mordomos, sendo os
mesmos nomeados anualmente. É normalmente um dia de festa,
animando a aldeia e optimizando a solidariedade
comunitária.
- As Boas Festas: na Segunda-feira da Pascoela era
feita em toda a aldeia a visita Pascal, que consistia na
visita domiciliária do Pároco da Freguesia dando a beijar
o Menino.
Este evento de cariz religioso representava muito
na religiosidade das gentes da aldeia. Actualmente pela
falta de padres deixou há alguns anos de se efectuar.
-O toque do sino: sempre que acontecia alguma coisa de
anormal na aldeia ( pessoa falecida, incêndios...), o sino
ouvia-se em badaladas sonoras avisando a gente da aldeia
para algo que tivesse acontecido.
- A festa em honra do padroeiro: Durante várias
décadas a festa religiosa em honra do Sr. do Bonfim,
realizava-se a 20 de Setembro de cada ano. A partir do
inicio da década de 90 a mesma passou a realizar-se no
terceiro Sábado de Agosto de cada ano. O seu programa
consistia na realização da Eucaristia, a procissão e o
leilão de oferendas, cuja receita revertia para os cofres
da capela.
A festa profana consistia nos bailaricos muito
concorridos efectuados ao som da guitarra e do harmónio,
sendo pretexto para animadas desgarradas.
Actualmente, estas tradições vão-se perdendo, já
que esses instrumentos e esses bailaricos vêm sendo
substituídos pelos conjuntos musicais que proliferam por
esse Portugal fora.
Os jogos tradicionais fazem também parte
integrante da cultura desta aldeia. Destes destacamos: o
jogo da malha e o jogo do pião.
A gastronomia: dos pratos mais típicos da aldeia
destacamos a chanfana de cabrito, o bucho, a tiborna ( que
era feita no lagar de azeite ), o arroz doce, a tigelada e
as filhós, iguarias normalmente confeccionadas nos dias de
festa ( Natal, Páscoa e Festa anual do Padroeiro ).
Mas, os habitantes da aldeia comiam sobretudo
aquilo que produziam: os ovos, as galinhas, os cabritos e
os porcos.
Algumas das tradições da aldeia estão
intrinsecamente ligadas ao domínio económico.
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Uma economia de subsistência
O Carvoeiro tem uma economia débil, de pura
subsistência que tinha como base a agricultura. Nesta
destacava-se a cultura do milho e da batata, a base da
alimentação das populações aqui residentes. O milho era
uma cultura intensiva e de regadio. Extremamente
trabalhosa, já que implicava a sementeira, a sacha, a
rega, o desfolhar, a colheita, a debulha e a seca dos
grãos ao sol nas tradicionais eiras.
Por seu lado, a irrigação implicou a construção de
levadas algumas com muitos quilómetros, em alguns lugares
esculpidas nas rochas e que demonstram bem o trabalho
árduo desta gente. Como artefactos utilizados na
agricultura destacamos: o arado de ferro que puxado por
bois, lavrava as pequenas eiras; o arado de madeira que
abria os regos para semear o milho e as batatas; a grade,
instrumento de madeira com dentes afiados que servia
normalmente para cortar as leivas da terra e aplaná-la
para a sementeira; a enchada; o sacho; o ancinho (
artefacto de ferro com dentes ).
Na recolha que fizemos no jornal A Comarca de
Arganil o autor que vimos citando, descreve estes
instrumentos do seguinte modo:
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O arado
Puxado pelos bois, lavrava a terra.
Mansamente, ia voltando as leivas.
Era um instrumento querido da Serra
Porque dele dependiam as sementeiras.
Tarefa grandiosa a do arado
Que as mãos do homem guiavam com mestria.
Lavrar a terra era trabalho sagrado
Feito com amor, zelo e alegria.
Por isso, era momento de festa
Mesmo sem gozar a sesta
E com suor a inundar o rosto...
Era trabalho pesado, sem pesar.
Missão nobilante a executar,
Porque o homem a fazia com gosto!
In jornal A Comarca de Arganil, nº 9833
4 de junho
de 1992
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A grade
Instrumento de madeira e afiados dentes
Era um evento de fabrico artesanal.
Puxado pelos bois, continuamente,
Cortava as leiras de forma sempre igual.
Num vai-e-vem muito repetido,
Deixava a terra pronta a semear.
Trabalho nobre, árduo e apetecido
Mesmo executado quase sem parar.
Eram as nossas gentes a executar
Uma tarefa ancestral de exaltar
Que dignificava o homem da serra...
Missão gratificante e meritória
De mãos dadas com a nossa história
Na sua luta insana com a terra!
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O sacho
Enchada pequena com têmpera cortante,
Comprado no mercado ou feita no artesão.
Era um utensílio muito importante
P’ra sachar o milho, batatas ou feijão.
Tarefa feminina, por excelência.
Trabalho feito com muita alegria.
Ranchos executando-o com ardência
Ao som de cantigas – que leda sinfonia!
Poema bucólico escrito com suor,
Com a música pautada no ardor,
Esculpido num livro muito apetecido...
Livro assinado pela nossa gente,
Pelas mulheres que amam e sentem,
Mas compêndio que nunca foi lido!...
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O ancinho
De dentes afiados em forma de pente
Que as mãos do homem manejavam com mestria.
Cavava e esmiuçava a terra, manualmente,
Nas leiras onde o arado não cabia.
Com o Astro-Rei a jorrar calor
E a dura terra difícil de virar.
Era um trabalho cansativo, mas de valor
Esta missão, extenuante, da terra cavar.
Ai, tanto esforço p’ra tão escasso pão!
Ai, tanta luta e tanta desilusão
E a lei da vida sempre tão desigual!...
A uns dava tudo quase sem trabalho;
A outros apenas suor e nenhum agasalho
Porque parentes pobres deste Portugal!
In jornal A Comarca de Arganil, nº 9839,9865 e 9850
de 1992
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O transporte dos produtos agrícolas dos locais de produção
para a aldeia eram feitos através do tradicional carro de
bois. Veja-se como o mesmo autor fala desta situação:
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O carro de bois
Duas rodas, o tampo e a tiradeira
À qual os bois, fortes, se prendiam.
Puxavam-no, com ardor, pela ladeira,
Em esforço insano e mútuo se uniam.
O animal e o homem lado a lado,
Em luta paralela plena de ardor.
Foi, assim, o quotidiano do passado
Nesta Serra agreste, mas cheia d’amor!
Era um enlevo ouvir o carro a sibilar,
Entoando sinfonias lindas de encantar,
Transportando os produtos da terra...
Pareciam sons divinos e melódicos,
Prenhes de magia, ledos e bucólicos,
Que tanto se identificavam com a serra!
In jornal A Comarca de Arganil, nº 9899, 12 de
Novembro de 1992
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A moagem dos cereais e a azeitona era feita em moinhos de
água normalmente colectivos e no lagar este, único para
toda a aldeia.
Existiam também fornos colectivos onde a população
cozia a broa de milho, base da sua alimentação.
Paralelamente, existiam outras actividades
económicas que serviam de complemento da agricultura,
nomeadamente a pastorícia ( rebanhos de cabras e ovelhas)
e o aproveitamento da floresta ( o pinheiro que produzia a
madeira e a resina ) e que teve alguma relevância
económica na aldeia; a vinha, a aguardente de medronho, a
produção de azeite e de mel.
Embora a matriz económica desta aldeia assente
naquilo que descrevemos existiam algumas profissões
tradicionais, nomeadamente um carpinteiro ( Manuel Roque);
dois pedreiros ( Manuel e António Martins ); um sapateiro
( do qual apenas apuramos que se chamava Manuel ); um
ferreiro ( José Lopes ) e um alfaiate ( Manuel Neves ).
Existiu ainda na primeira metade deste século o Barbeiro,
de nome Alberto Magno de Oliveira, uma figura que ainda
hoje resiste á memória do tempo, tantos foram os serviços
por ele prestados no âmbito da medicina tradicional numa
altura em que os médicos praticamente eram inexistentes em
todo o concelho.
Segundo apurámos foi um homem letrado da aldeia e
durante décadas correspondente do jornal a Comarca de
Arganil que temos vindo a citar ao longo deste trabalho.
Foi um verdadeiro “João semana” já que segundo nos
contaram o Barbeiro em causa prestava muitas vezes o seu
serviço sem qualquer recompensa económica.
Houve também na aldeia um negociante de gado,
homem que fez história e liderou em muitas ocasiões as
questões colectivas da comunidade. Chamou-se Francisco
Antão.
Recentemente, por iniciativa da Comissão de
Melhoramentos local, presidida pelo Sr. Nuno Ramos, foi
feita a toponímia das ruas da aldeia, com alguns destes
nomes que marcaram a sua história. ( ver anexo II)
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Carvoeiro de hoje
Como já foi demonstrado quando tratámos a demografia da
aldeia, estes últimos 40 anos transformaram quase
radicalmente a vivência diária de outrora. Assim, o êxodo
que se processou em direcção ao litoral teve como
consequência o abandono das terras de cultivo, estando
hoje muitas delas irreconhecíveis, existindo as silvas
onde no antenho floresceu o milho. As antigas casas de
despejo estão em escombros, as adegas abandonadas, os
artefactos agrícolas enferrujados ou desaparecidos. Já não
se ouvem os carros de bois, nem se vêem na paisagem os
rebanhos de caprinos e ovinos.
Os actuais habitantes cultivam apenas os pequenos
quintais junto da povoação onde produzem algumas batatas e
hortaliças. A povoação continua ainda rodeada de oliveiras
das quais anualmente são apanhadas as azeitonas e
transformadas em azeite. No entanto, essa transformação é
já feita em lagares industriais situados fora da zona
geográfica da aldeia ( Lousã ou Castanheira de Pêra ),
pois o lagar tradicional há muito foi abandonado. Também
os moinhos de água e os fornos colectivos estão já em
escombros.
Veja-se a forma como o mesmo autor retracta estas infra
estruturas hoje em abandono:
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O Lagar
Era um lugar fraterno – o do lagar
Que no Inverno a luz nos acendia.
Do seu rodar contínuo, sem parar
Alimento e vida dele surgia...
Tarefa infinita e divinal
Empreendida com amor acrisolado.
Dela brotava o azeite – qual cristal,
Raio de luz, diamante imaculado.
Em certas noites surgiam as “tibornas”
E a fornalha tornava as manhãs mornas,
Era transcendente a sua acção...
Que, vivida pelo povo, intensamente,
Dela tirava o provento, alegremente,
E lhe enchia de amizade o coração!
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O Moinho
Rodopiavas, incessante, sem parar
Alimentado pela água da Ribeira.
No teu rodar contínuo, sem cessar
Moías o milho seco na Eira.
Do teu esforço insano nascia a farinha
Que, amassada pelo homem, era o seu pão.
Era um trabalho divino feito com carinho
Que à nossa gente retemperava o coração.
Passou o tempo, estás abandonado.
Já não tens portas nem telhado,
Apenas a tua mó ali perdura...
Os homens fugiram, deixaram-te sozinho,
Sentes-te um objecto inválido, velhinho,
Vives triste, envolto em amargura!...
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O Forno
Aquecido pela nossa mão
Com a lenha do pinheiro.
Aqui se cozia o pão
Que se comia à lareira.
Era o local por excelência
Onde muita gente vinha.
Lugar de boa vivência
Que tanta importância tinha.
Mudaram-se os tempos, tudo se acabou.
Já não há gente onde gente morou
E o forno está, agora, destelhado...
É tão triste ter sido na vida alguém.
Ter sido útil e importante, também
E ver-se, agora, só, abandonado!
In jornal A Comarca de Lisboa, nº 9824, 9821 e 9830
de 1992
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A escola fechou em 1968 por falta de alunos e a floresta
foi dizimada pelos fogos florestais.
Paradoxalmente, os habitantes a residir na aldeia
têm hoje uma melhor qualidade de vida em consequência de
reformas sociais ( os mais idosos) e de maior facilidade
de emprego ( construção civil e outras actividades ) dos
mais jovens,
Em termos de infra-estruturas colectivas a aldeia
tem hoje quase tudo dentro do mínimo exigido: ruas
asfaltadas, luz eléctrica, água ao domicilio, casa de
convívio ( onde as gentes da aldeia se reúnem em amenas
cavaqueiras ), telefone, entre outras.
As pessoas que deixaram a aldeia nas décadas de
50/60 e 70 tiveram quase todas um grande êxito
profissional, havendo mesmo muitas delas detentoras de
autênticas fortunas. Deste modo, aliando o poder económico
ao amor acrisolado que nutrem pela sua terra natal, o
Carvoeiro tem hoje lindas vivendas que vão tendo vida,
sobretudo na época de Verão, Natal, Páscoa e, também, em
muitos fins de semana prolongados que são aproveitados
para a sua deslocação de Lisboa à aldeia, já que hoje as
acessibilidades são de razoável qualidade.
Mas a modernidade não trouxe somente o abandono
das actividades tradicionais, do património e artefactos
que as sustentavam, trouxe também novos comportamentos e
novas atitudes em relação ao colectivo da aldeia.
Pelo que nos foi possível auscultar a
solidariedade colectiva não é já tão sadia e fraterna como
no antenho.
Hoje a aldeia vai-se debatendo com o perigo
inexorável da perda de identidade ligada às suas antigas
tradições e costumes. Os Media também aqui já vão
fazendo as suas mossas, a informação vai chegando e os
costumes alterando.
Tradições como a matança do porco, as janeiras, o
mastro, as vindimas ou as debulhas de que fizemos
referência, são hoje pouco mais do que “coisas” esquecidas
no tempo.
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Carvoeiro de amanhã
O Carvoeiro do futuro será necessariamente
herdeiro do Carvoeiro do presente. São, portanto, os
Carvoeirenses de hoje que influenciarão aquilo que a sua
aldeia virá a ser no futuro.
O ciclo da agricultura que prevaleceu até à década
de 70 estará irremediavelmente condenado.
A sua população actual ( com um ligeiro
rejuvenescimento ) poderá indiciar um revigoramento na
sua estrutura. No entanto, essa ideia poderá não ser tão
linear, uma vez que a sua fixação futura poderá depender
daquilo que a aldeia e o concelho lhes proporcionar a
nível de emprego e qualidade de vida.
O amanhã risonho desta aldeia serrana não deverá
passar pelas actividades tradicionais que ao longo dos
últimos dois séculos marcaram o viver das suas gentes. A
história dos homens é mutável e a mudança é inexorável.
Por isso pensamos que o futuro demográfico, económico e
social passará por outros actividades profissionais,
nomeadamente pelo emprego a tempo certo na sede do
concelho em instituições públicas ou privadas, pela
ocupação de alguma mão-de-obra na construção civil (
construção de habitações na aldeia ou fora delas ); pelo
possível desenvolvimento do turismo cultural, que por seu
lado poderá potenciar o incremento da apicultura, de
produtos artesanais ( ex, a aguardente de medronho )
produtos que poderão ter uma qualidade acima da média e
serem por isso rentáveis.
Paralelamente, poderá ser posto em marcha
projectos de reflorestação que poderão ser uma mais valia
económica para esse futuro.
Será preciso também trazer para essa actualidade
as tradições que se perderam, construindo o projecto já
elaborado da reconstrução da antiga escola (ver anexo III),
para nela ser criado um museu etnográfico cujo embrião
existe actualmente na casa de convívio ( ver anexo IV), a
ser incorporado num futuro roteiro turístico cultural:
museu concelhio - museu de Carvoeiro, o Museu de Carvalho,
o Museu Nunes Pereira de Fajão e possivelmente outros, que
viriam a dar vida e alguma prosperidade à aldeia.
Acrescente-se a possível corporação em futuros projectos
mútuos com a aldeia vizinha de Carvalho e cuja geminação
recente atesta essa vontade ( ver anexo V ).
Assim, com a congregação do actual dinamismo autárquico e
das actuantes gentes da aldeia o seu futuro poderá ser
radioso e próspero.
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Conclusão
Pelo que ficou exposto pode-se concluir que a
aldeia de Carvoeiro em termos de êxodo rural e abandono de
actividades tradicionais é paradigmática daquilo que se
passou a partir da década de 50 no mundo rural português:
a transferência imparável das populações do inteior em
direcção às grandes cidades do litoral, sobretudo Lisboa,
Porto e Coimbra.
Pelo contacto directo que tivemos com os seus
actuais habitantes e com os autarcas do concelho é
possível avançarmos com as seguintes ideias:
Que as actuais actividades económicas não são já a
tradicional agricultura ou a exploração da floresta, mas
as reformas sociais para os mais idosos ou alguns empregos
na construção civil. Apesar de tudo, e por paradoxal que
pareça, a qualidade de vida das suas gentes será
eventualmente melhor do que as que os antecederam.
A população foi envelhecendo, a agricultura deixou de ter
mão-de-obra e passou a ser apenas de subsistência ou
simples divertimento. Os costumes e tradições
revitalizam-se nos meses de Verão quando estão presentes
os i(e)migrantes, filhos da terra, trazendo as novas
gerações.
Actualmente a aldeia tem todo um conjunto de
infraestruturas básicas como a água, luz, saneamento
básico, estradas que se devem principalmente, às acções da
Comissão de Melhoramentos do Carvoeiro.
Toda a evolução da aldeia está intimamente ligada à
própria evolução do concelho porque não se trata de um
sistema isolado.
Para um Carvoeiro de amanhã as opiniões dos seus
habitantes não são muito positivas apesar de acreditarem e
terem confiança das acções da Comissão de Melhoramentos
que tem uma direcção muito jovem e que envolve muitos
jovens filhos de emigrantes desta terra.
São apontados problemas como a falta de sinceridade, de
solidariedade entre as pessoas que à primeira vista seriam
apontadas como características da vivência urbana; a
falta de boas vias de comunicação que são fundamentais
para poder atrair mais pessoas, atrair a juventude através
da realização de actividades desportivas, de actividades
em contacto com a natureza que tem muito para oferecer...
Um outro aspecto foi o facto da falta de assistência
médica ter sido pouco salientada (por alguns nem foi
referida) facto talvez explicado pela proximidade a
Coimbra ou recorrência às especialidades médicas em
Lisboa.
“O que falta é conservar o que há, porque o necessário já
está feito”
Sr. Samarra
O futuro não é muito risonho, apesar de haver
infra-estruturas. A aldeia acabar ? Talvez não acabe, o
problema é que não evolui.”
Sr.ª Mª Teresa, secretária do presidente da junta do
Pessegueiro
De facto é uma aldeia que não foge à regra das restantes
aldeias beirãs e, tal, como elas tem visto a sua população
a decrescer no sentido da desertificação. Mas têm sido
tomadas medidas para combater esta triste realidade
através da acção conjunta entre a junta de freguesia e as
comissões de melhoramentos.
Um aspecto que achamos interessante é o amor que os
oriundos desta aldeia têm por ela. No Verão,
principalmente no mês de Agosto, a população quintuplica
e há um enorme espírito de camaradagem entre eles. Todos
ajudam para que as tradições antigas não acabem, todos
colaboram em nome de uma comunidade. Algo que se tem vindo
a perder entre os habitantes que vivem permanentemente na
aldeia. O problema é que não é de um mês que vive um ano!
A Comissão de Melhoramentos tem actuado para não deixar
acabar esta aldeia e para retomar as suas principais
tradições. Mas, para isso, é necessário o apoio de todos
os habitantes, e que as pessoas se unam em torno de uma
causa comum que só traz vantagens para todos, mesmo aos
forasteiros, porque impede a desertificação total da
aldeia e o desaparecimento de costumes e tradições que
não fazem parte apenas de uma cultura local mas também
nacional.
É fundamental, nos dias de hoje, criar novas oportunidades
para as áreas rurais, desenvolvendo a agricultura (ex,
caprinicultura...), protegendo e utilizando o património
natural e cultural e o próprio desenvolvimento de
actividades não agrícolas exemplo do parque industrial, os
serviços e o turismo que se realizaram a nível de um
concelho o que reflectirá certamente na dinâmica da aldeia
do Carvoeiro.
A actual situação demográfica indicia um rejuvenescimento
que poderá potenciar a não desertificação da aldeia a
longo prazo. Simultaneamente as actuais infra-estruturas
da aldeia que garantem já alguma qualidade de vida,
juntamente com o dinamismo das sua populações , os
projectos já em embrião e as perspectivas de
desenvolvimento turístico do concelho, poderão ser
instrumentos e uma mais valia para a sua prosperidade.
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Crendices e superstições
Unheiro – inflamação unhas
Passa-se uma aliança de ouro por cima da vista três vezes,
ao terceiro dia a está boa.
Espinhela caída – dores de costas
Se esta espinhela por arte do Diabo nesta pessoa (nome da
pessoa) caída em nome de Jesus seja erguida se esta
espinhela por arte do Diabo foi tombada por Santíssimo
nome de Jesus seja levantada.
A pessoa deve estar sentada num banco baixo de pés juntos,
deixando cair os braços e a pessoa que faz a reza fica por
traz pegando nos pulsos e levantando os braços do doente,
se os dedos das mãos baterem certo a espinhela não está
caída, se não faz-se a reza e voltam a levantar-se.
Repete-se durante três dias.
Erzipela – perna vermelha e inchada
tromboflubite.
Sempre verde bem aventurada na Sepultura Deus criada,
nasceu e foi semeado aceita a Virgem Nossa Senhora mais
São João curar esta erzipela e este erzipelão, São
Silvestre cura esta erzipela para que tudo o que eu fizer
tudo preste.
Enquanto se dizem estas palavras passa-se por cima flores
de sabugeiro.
Para espantar a trovoada
São Gregório se levantou, seu sapatinho calçou pelo
caminho adiante andou, encontrou Nossa Senhora e esta lhe
perguntou: para onde vais São Gregório?
“Vou derramar estas trovoadas que por cima de nós andam
armadas”.
Derramas bem derramadinhas para que não hoje estragues
caminhos, por onde não haja mulheres nem meninos, nem
cabras com cabritinhos, nem vacas com bezerrinhos, nem.na
eira nem beira nem coisa que Deus queira se não o olho de
uma figueira brava.
Cabrita – vista inflamada
Com um crucifixo em frente à vista doente diz-se as
seguintes palavras ao mesmo tempo que se vai fazendo uma
cruz, tantas vezes quanto durar o tempo de dizer as
palavras.
Em nome de Deus e da Virgem Maria, milagrosa Santa Luzia,
eu te benzo para Santa milagrosa te sare, se fores cabrita
valha-te Santa Rita, se fores serpão valha-te São João, se
fores unheiro valha-te Deus verdadeiro, eu te curo e eu te
benzo para que Deus te atalhe para que não cresças nem
reverdesças pelas cinco chagas do Nosso Senhor Jesus
Cristo.
Esta reza repete-se por três dias seguidos.
Cobrante – mau olhado
Sobre a cabeça dizem-se as seguintes palavras:
Deus te criou e Deus te gerou
Deus te livre de má sombra que assombrou
Assim como Deus nasceu em Belém
Eu te curo cobrante e olhado
Que nesta pessoa (diz-se o nome da pessoa) foi deitado.
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Quadras populares
No lugar do Carvoeiro
Encontras quem te quer bem
È o Senhor do Bonfim
Que não quer mal a ningué
Ò lugar do Carvoeiro
De pequenino tens graça
Tem um povo hospitaleiro
Que acolhe por quem lá passa
Ò lugar do Carvoeiro
Tens ladeiras a subir
Quem lá vai levar amores
Vai ao céu e torna a vir
Ò lugar do Carvoeiro
Tens no cimo um Loureiro
Quem lá vai levar amores
Tem de ter o pé ligeiro
Ò lugar do Carvoeiro
É uma terra altareira
Verdejante e florida
Tens a teus pés a ribeira
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Marcha popular
O Carvoeiro terra linda abençoada
Eu trago-te guardada
dentro do meu coração
Terra formosa desta pátria tão ditosa
Quem és tu ò Carvoeiro?
És o jardim mais belo de Portugal
A tua gente te ama
E sente como ninguém
Sabe cantar sabe rezar
Porque alma tem
Na dura serra
Cariando a terra
Cá ganha a vida
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